O homem que sabia javanês é um conto escrito por Lima
Barreto, que narra a história de Castelo, um malandro que, no
começo do século XX, finge saber falar javanês para conseguir um
emprego e, afinal, fica famoso como um dos únicos tradutores desse idioma. O
conto foi publicado pela primeira vez no jornal Gazeta da
Tarde do Rio de Janeiro, em 28 de abril de
1911, posteriormente foi incluído na coletânea "O homem que sabia
javanês e outros contos". Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no
Rio de Janeiro em 1881, onde morreu em 1922.
Castelo encontrou-se com seu amigo Castro e, num bar
tomando uns copos de cerveja, contou a ele as malandragens que tivera que fazer
para sobreviver. Castelo, era nomeado cônsul, mas, em outros tempos passou por
momentos difíceis. Foi quando teve a oportunidade e a astúcia, de ser professor
de javanês. Por conta disso é que ganhou o consulado.
Quando chegou ao Rio de janeiro, estava literalmente na
miséria. Vivia de pensão em pensão, sem saber como ganhar dinheiro, foi quando
leu um anúncio no jornal dizendo que precisavam de um professor de javanês para
traduzir livros cartas. Percebendo que estava ali uma colocação que não teria
muitos concorrentes, decidiu aprender umas quatro palavras e apresentar-se.
Na Biblioteca Nacional, descobriu que Java era uma grande
ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua do grupo
malaio-polinésio, possuía uma literatura escrita em caracteres derivados do
velho alfabeto hindu. Então, ele copiou o alfabeto, a sua pronunciação e saiu
pelas ruas memorizando hieróglifos e escrevendo-os na areia para se
habituar a escrevê-los.
Castelo voltou a procurar o anúncio e redigiu uma carta e
deixou no Jornal. Em dois dias, recebeu uma carta para ir falar com o Doutor
Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga. Diante do ancião,
Castelo se apresentou como o professor de javanês de que ele precisava. O velho
quis saber onde tinha aprendido o javanês. Aquele não contava com essa
pergunta, mas imediatamente inventou uma mentira. Contou-lhe que seu pai era
javanês, que viera à Bahia como tripulante de um navio mercante,
estabelecera-se em Canavieiras como pescador e se casara com sua mãe.
Convencido, o Barão disse que queria cumprir um juramento de família. Ao morrer
seu avô deu o livro pro seu pai, que lhe deu para guardá-lo e um dia
entendê-lo, para a sua raça ser sempre feliz.
O velho Barão explicou que perdera todos os filhos,
sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, estava reduzida a um
filho débil de corpo e de saúde frágil. Diante de tanto desterro,
lembrou-se do livro esquecido e das palavras do seu avô repetidas pelo seu pai
no leito de morte. O livro era um velho calhamaço encadernado em couro,
impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Tinha umas páginas
de prefácio, escritas em inglês, onde estava escrito que se tratava das
histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
A filha e o genro vieram a ter notícias do estudo do velho,
mas não se incomodaram, até julgaram que seria uma coisa boa para distraí-lo. O
marido da filha do barão era desembargador, homem relacionado e poderoso que
nutriu grande admiração pelo professor de javanês. Por sua vez, o barão estava
contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-lhe
para traduzir, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado.
O barão convidou Castelo para morar em sua casa e o encheu
de presentes, além de aumentar o seu ordenado. Contribuiu para isso o
fato de o velho vir a receber uma herança de um seu parente que vivia em
Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao javanês.
Castelo passou a ter, enfim, uma vida boa. O seu temor de
ser descoberto foi grande quando o barão o mandou com uma carta ao Visconde de
Caruru, para que lhe fizesse entrar na diplomacia. O visconde o mandou para a
Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. O diretor chamou os
chefes de seção e apresentou-lhe como um homem que sabia javanês. O velhaco foi
à presença do ministro que o nomeou adido ao seu ministério e o designou
para representar o Brasil em Bále, no congresso de Linguística.
O velho barão, antes de morrer, passou o livro ao genro
para que o fizesse chegar ao seu neto quando tivesse a idade conveniente,
também incluiu Castelo no seu testamento. A convite da redação, Castelo
escreveu um artigo sobre a literatura javanesa antiga e moderna no Jornal do
Comércio.
Certa vez a polícia prendeu um marujo que só falava em
língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Castelo
também foi chamado, demorou a ir, e quando chegou lá o homem já estava solto,
graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia
dúzia de palavras holandesas. Deu muita sorte porque o tal marujo era javanês.
Castelo se tornou cônsul em Havana, onde aperfeiçoou seus
estudos nas línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. Castro ficou extasiado
com a história de Castelo e, agarrando o copo de cerveja tomou um longo gole e
disse brincando ao amigo que ele poderia ser o que quisesse, até um eminente
Bacteriologista, tal era sua esperteza.
LÚCIA HELENA DA ENCARNAÇÃO - Acadêmica de Pedagogia - Unaerp/Guarujá
LÚCIA HELENA DA ENCARNAÇÃO - Acadêmica de Pedagogia - Unaerp/Guarujá